Poucos são os momentos em que forma e conteúdo confluem em tamanha harmonia. Henrique Bezerra Martins, em seu livro Para a nascente correm todos os rios, faz-nos visitar a memória como um saltador contempla o ondular das águas a partir de um altíssimo trampolim. É preciso pular. Em uma escrita caleidoscópica, o texto faz-nos navegar por aquilo que tantas vezes evitamos habitar: as reminiscências. Sem se prender a uma linearidade cronológica de acontecimentos, a narrativa encontra o seu próprio caminho nas ausências que organizam silenciosamente a existência: a infância que já não retorna, o espaço familiar não mais reconhecido, as muitas terras que chamamos de lar e das quais, tão logo, nos despedimos. Como um rio que nunca corre em linha reta, o romance acompanha o movimento das águas em seus remansos, desvios, redemoinhos e retornos. Martins nos revela que o tempo não se permite cristalizar em forma definitiva: ora é sólido, ora líquido, ora etéreo. A nascente, por sua vez, não designa um lugar geográfico. É o lugar onde aquilo que parecia perdido continua, silenciosamente, a existir. 

— Larissa Dantas Camargo Mello

Autora de O vampiro de Évora