Vó

vó,
de suas raízes fez-se planta; suas mãos foram mudas.
entre os seus dedos miúdos desliza a ponta da agulha
em movimentos elípticos que recordam
retalhos de vida que agora remenda em bordados.
a janela aberta da sala recebe o sol em seus olhos,
refresca-se de tarde e assisto você crescer à distância,
como a estátua de santa na cozinha, a virgem maria,
que dizia sempre olhar por nós
com olhos de vidro tremendo, apertados, a segurar torrentes.
assim também os seus eram contentes,
a preparar presentes aos netos que ficaram,
e nas pontas dos dedos furinhos de agulha.
pedi à santa: proteja os olhos dela.
tinha medo que deles caíssem relíquias,
como do seu filho morto.
isso a fez santa,
pois nunca secou por dentro.
agraciada sentiu crescer em si o amor,
que nunca mais lhe deixou,
mesmo quando se sentiu por ele abandonada,
como no dia em que o marido a deixou com outros filhos.
sozinha, viu suas pétalas caírem no caminho;
dos prantos regou os próprios pés.
nos gestou.
pois da senhora, vó, vem o encanto —
morada de nós. a senhora criou ramos,
nossa planta do deserto.