Henrique Bezerra
Martins
vó, de suas raízes fez-se planta; suas mãos foram mudas. entre os seus dedos miúdos desliza a ponta da agulha em movimentos elípticos que recordam retalhos de vida que agora remenda em bordados. a janela aberta da sala recebe o sol em seus olhos, refresca-se de tarde e assisto você crescer à distância, como a estátua de santa na cozinha, a virgem maria, que dizia sempre olhar por nós com olhos de vidro tremendo, apertados, a segurar torrentes. assim também os seus eram contentes, a preparar presentes aos netos que ficaram, e nas pontas dos dedos furinhos de agulha. pedi à santa: proteja os olhos dela. tinha medo que deles caíssem relíquias, como do seu filho morto. isso a fez santa, pois nunca secou por dentro. agraciada sentiu crescer em si o amor, que nunca mais lhe deixou, mesmo quando se sentiu por ele abandonada, como no dia em que o marido a deixou com outros filhos. sozinha, viu suas pétalas caírem no caminho; dos prantos regou os próprios pés. nos gestou. pois da senhora, vó, vem o encanto — morada de nós. a senhora criou ramos, nossa planta do deserto.