Minicurso | Data: 07 de novembro de 2026 | Horário: 15h. | Duração: 2 horas
Literatura e existência: a escrita como processo de tornar-se si mesmo

Acesso gratuito para leitores que adquirirem Para a nascente correm todos os rios.
Sobre o minicurso
O que acontece conosco quando escrevemos? A escrita apenas expressa uma identidade já formada ou participa da criação — e também da transformação — daquele que escreve?
Neste minicurso, investigaremos filosoficamente a relação entre literatura, existência e formação de si. Partindo dos Diários de Søren Kierkegaard e atravessando as reflexões de Rainer Maria Rilke, Georges Bataille e Maurice Blanchot, compreenderemos a escrita não somente em suas dimensões técnica e estética ou em seu caráter autobiográfico, mas também em sua dimensão ontológica: uma prática por meio da qual o indivíduo procura uma verdade capaz de orientar sua vida, reconhece sua necessidade interior, confronta os limites da própria consciência e se aproxima daquilo que nem sempre pode ser plenamente dito.
Percurso
Nosso percurso seguirá uma via de mão dupla: examinaremos como o processo de tornar-se si-mesmo pode aprofundar a escrita criativa e, inversamente, como escrever pode revelar, transformar e até desestabilizar quem escreve.
Começaremos com o jovem Kierkegaard, para quem o problema existencial fundamental consiste em descobrir uma verdade a partir da qual se possa viver ou morrer, ou seja, que possa ser apropriada e convertida em modo de vida. Nesse sentido, a escrita, para aqueles que não vivem sem ela, registra e intensifica a busca por uma tarefa capaz de comprometer toda a existência.
Rilke transpõe essa exigência para a vocação poética: a escrita autêntica nasce de uma necessidade interior e exige que a vida seja organizada como testemunho dessa necessidade. A solidão torna-se, então, o espaço no qual uma voz própria pode amadurecer.
Bataille, porém, conduz essa interioridade ao “extremo do possível”. Levada até suas últimas consequências, a experiência já não confirma um “eu” estável, mas o coloca em questão por meio da angústia, do êxtase e do não saber, fazendo a linguagem aproximar-se do silêncio.
Blanchot radicaliza essa passagem: o desastre não é uma experiência que o escritor domina e transforma soberanamente em obra. É aquilo que fragmenta a experiência, apaga a centralidade do “eu” e obriga a escrita a responder ao que permanece irredutivelmente indizível.
Assim, tornar-se si-mesmo não significa simplesmente afirmar ou narrar uma identidade já pronta. Significa atravessar um duplo movimento: comprometer-se profundamente com aquilo que se reconhece como necessário e, ao mesmo tempo, aceitar que a escrita transforme, desoriente e despossua aquele que escreve. É justamente dessa tensão que a escrita criativa pode retirar sua força.
O curso avançará da seguinte maneira: apropriação, necessidade, experiência-limite, despossessão. Com isso, a passagem de Kierkegaard a Blanchot deixa de parecer uma ruptura arbitrária: o desastre blanchotiano surge como uma exigência da própria experiência existencial. O sujeito começa procurando uma verdade pela qual viver, mas termina descobrindo que escrever verdadeiramente também é não permanecer intacto. Tomaremos as obras de Clarice Lispector e Hilda Hilst como encarnações literárias desse percurso existencial.
O que você vai aprender
Ao longo do minicurso, você será convidado a:
- compreender a diferença entre escrever sobre si e escrever como processo de tornar-se;
- conhecer conceitos centrais da filosofia existencial e do pensamento literário de Kierkegaard, Rilke, Bataille e Blanchot;
- refletir sobre verdade subjetiva, apropriação, necessidade interior, solidão, angústia, experiência-limite, silêncio e fragmentação;
- reconhecer como a escrita pode formar uma voz própria sem reduzi-la à expressão de uma identidade fixa;
- perceber como o não saber, a ruptura e o indizível podem se tornar forças criativas;
- relacionar experiência existencial, formação de si e criação literária;
- experimentar uma forma de escrita em que o texto não somente comunica algo, mas também transforma aquele que escreve.
Abordagem filosófica
Embora dialogue com a escrita criativa, o curso possui uma ênfase fundamentalmente filosófica. Não se trata, em primeiro lugar, de ensinar técnicas de construção de personagens, enredo ou estilo, mas de investigar o que significa escrever como modo de existência. A questão central não será somente “como escrever melhor?”, mas que relação com a verdade, consigo mesmo e com os limites da experiência se torna possível por meio da escrita?
Para quem é o curso
O minicurso é destinado a estudantes de filosofia, letras, literatura e áreas afins, assim como a escritores, leitores e pessoas interessadas nas relações entre escrita, subjetividade e existência. Não é necessário possuir formação filosófica prévia.
Bibliografia
BATAILLE, Georges. Inner Experience. Trad. Leslie Anne Boldt. Albany: State University of New York Press, 1988.
BLANCHOT, Maurice. O espaço literário.
BLANCHOT, Maurice. The Writing of the Disaster. Trad. Ann Smock. Lincoln: University of Nebraska Press, 1995.
HILST, Hilda. Estar sendo. Ter sido.
KERN, Edith. Existential Thought and Fictional Technique: Kierkegaard, Sartre, Beckett. New Haven: Yale University Press, 1970.
KIERKEGAARD, Søren. A doença para a morte.
KIERKEGAARD, Søren. “Journal AA”, especialmente a entrada AA:12, de 1º de agosto de 1835. In: Kierkegaard’s Journals and Notebooks. v. 1: Journals AA–DD. Princeton: Princeton University Press, 2007.
KIERKEGAARD, Søren. O ponto de vista explicativo da minha obra como escritor.
LISPECTOR, Clarice. Água viva.
NIETZSCHE, Friedrich. Ecce homo: como alguém se torna o que é.
RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta.RILKE, Rainer Maria. Os cadernos de Malte Laurids Brigge.